quarta-feira, 19 de agosto de 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A origem pelos olhos


No Salão do Clube Naval, um pequeno desenho de um pássaro ao estilo das ilustrações taxonômicas dos estudos de ornitologia se destacava através da intensa sensação de vida que surgia dos olhos. Nesta discreta obra que obedecia aos cânones acadêmicos, fundamentais na avaliação dos candidatos inscritos para expor nas dependências Art Nouveau deste clube ligado à Marinha brasileira, a figura dos olhos apresentava uma potencia afetiva que insuflava ao pássaro representacional, uma alma imanente (o olho composto por matérias aplicados sobre um suporte, conservando sensações), de como diria o próprio Anderson, um ser. Sua admiração pela técnica e artistas acadêmicos permanece nos olhos que aparecem nesta série de pinturas (acrílicas), olhos que instigam o observador como os da prostituta nua encarando desafiadoramente o público na Olympia de Manet. Respeitando a tradição modernista e propondo questões relacionadas com o momento artístico contemporâneo, as pinturas abstratas (aliás, para Deleuze toda arte é abstrata, não se reduzindo a mera representação de uma suposta realidade exterior, mas como um composto de sensações que se encarna num material) como suas figuras ou figurais simplificadas criadas numa pesquisa rigorosa que busca apreender formas básicas com potências de afecção. Abandona-se a mimese ilustrativa para enfatizar a criação de perceptos e afectos (em devir). E neste processo criador (ao contrário dos trabalhos acadêmicos anteriores), o material entra na sensação, no plano de composição estética (independente de qualquer perspectiva e profundidade).
Os figurais simplificados se tornam linhas que não traçam qualquer contorno e não delimitam uma forma fechada. Estes quadros lembram as obras finais de Paul Klee. A superfície plana na pintura não apresenta efeitos de tridimensionalidade que aparecem somente nos olhos (globos oculares), talvez uma sobrevivência das ilustrações taxonômicas de pássaros. E estes globos oculares constituem a origem do “ser dourado”, a sua alma.
No processo de criação, o artista aplica primeiramente sobre a tela camadas monocromáticas de tinta. E depois a povoa com várias figuras geométricas construindo um “fundo”, trazendo a idéia de infinito. Então, a partir do globo ocular é elaborado o “ser dourado” formado por linhas douradas como suas sensações ambíguas situadas entre (usando uma terminologia classificatória tradicional) o figurativo e o abstrato. Os elementos da pintura contrastam entre si, mas também se completam de maneira equilibrada como num exercício zen ( com sua lógica e prática paradoxais). O olho pensa, mais ainda do que escuta como problematizava Deleuze. Enfim, nestas pinturas, a visão existe pelo pensamento.


Carlos da Mata

Seres dourados


“A cor pura encontra as formas geométricas não tão rigorosas, abrindo caminho para o surgimento de seres dourados e enigmáticos de olhos germinantes”.


Anderson Lopes